sábado, 26 de setembro de 2009

Um homem em busca de uma história

Pode-se ter a idéia de que, para um repórter policial, a violência é uma rotina vista com indiferença, como se a cobertura diária dos crimes tivesse um efeito anestésico. Mas até jornalistas experientes e velhos de guerra podem ter dificuldade para suportar o horror da brutalidade que cerca ruas e esquinas dos grandes centros urbanos, como o Rio de Janeiro.

Em meio ao belo cenário carioca, Ricardo Menezes, um repórter de meia-idade, busca no passado uma válvula de escape que lhe dê forças para lidar com mais um assassinato. Saudosista, ele se agarra aos versos de Nelson Cavaquinho e às lembranças de um jornalismo “romântico” que não viveu, com seus personagens folclóricos, a exemplo de um certo João Carniça – que não sabia escrever, mas “apurava pacas”.

Uma daquelas velhas histórias curiosas e engraçadas, que o faça rir, é tudo o que deseja Ricardo, o protagonista de “O Ponto da Partida”. Lançado recentemente pela editora Record, é o terceiro romance do jornalista e escritor Fernando Molica, autor de “Notícias do Mirandão” (2002), “O Homem que Morreu Três Vezes” (2003) e “Bandeira Negra, Amor” (2005).

Por meio de uma narrativa não-linear, intercalando primeira e terceira pessoas, Molica apresenta um personagem em crise de meia-idade, dividido e preso ao passado, incapaz de compreender e conviver com a nova geração – aqui representada por seus próprios filhos e pelos jovens jornalistas que enchem as redações de hoje.

Passado

A estrutura se alterna em três tempos: o momento presente, em que Ricardo está de plantão diante de um cadáver na praia do Arpoador; um passado recente, com cenas ocorridas naquele mesmo dia; e outro mais antigo, que revê toda a trajetória pessoal e profissional do protagonista.

Enquanto aguarda, durante toda uma madrugada, que a polícia recolha o corpo esquartejado de uma mulher, Ricardo revira os arquivos de sua memória, em busca de mais uma história do saudoso João Carniça. Desejando encontrar conforto, acaba tendo de enfrentar seus próprios demônios, como as lembranças do fracasso como pai de família e do desprezo dos filhos.
O homicídio, que serve de mote para o livro e foi tirado de uma situação real vivida pelo autor, é apenas pano de fundo para a história. Em vez de se concentrar na solução do crime, como nos romances policiais, Fernando Molica fecha o foco no personagem – sua subjetividade, seus desejos, suas angústias.

O protagonista, boêmio confesso, interfere na história de tempo em tempo. A narrativa em primeira pessoa assume o tom coloquial de uma conversa de botequim. Ricardo despeja seu desabafo, recheado de nostalgia e desencanto, profissional e pessoal. O tom de sua voz, no entanto, em vez de melancolia, revela um senso de humor cáustico.

Divorciado de Adélia, uma advogada bem-sucedida e corrupta, ele manifesta seu ódio pela ex-mulher e não poupa críticas aos próprios filhos: a fútil e consumista Caroline e Carlos, que faz questão de ser o oposto de tudo aquilo que o pai representa. Apesar disso, Ricardo reconhece que não é totalmente inocente pelo casamento frustrado e o abismo afetivo que o separa dos filhos.

Ao final, com o dia já clareando, o corpo abandonado na praia é recolhido, e Fernando reserva uma virada surpreendente para o seu desiludido protagonista. De duas outras derrotas pessoais, surge a perspectiva de uma nova vida e um recomeço. Caminhando pelas ruas do Rio, Ricardo alimenta a esperança de que “o sol há de brilhar mais uma vez”.

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sábado, 9 de maio de 2009

Capítulo2. nonada

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Capítulo1. blablabla

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